Sagrado Feminino: uma jornada de volta para casa

Marcela Rodrigues -

O resgate dos saberes ancestrais, a ressignificação dos ciclos femininos e a reconexão com a natureza propõem um novo e acolhedor olhar para a condição de Ser mulher. É um mergulho para dentro com a sensação de voltar para casa

Por Marcela Rodrigues (Artigo assinado por mim, escrito originalmente para a revista bons Fluidos)

“Em busca do Sagrado Feminino”: um relato que escrevi para a Bons fluidos (Foto: a Naturalíssima)

Há pouco mais de três anos eu estava em uma jornada recente de vai e  em com o coletor menstrual, já não tomava anticoncepcionais para me permitir sentir cada fase do meu ciclo, fazia meus próprios cosméticos para não poluir a natureza com a minha vaidade e estava cada vez mais íntima das ervas e plantas. Entre um compromisso e outro na agitação da capital paulista, buscava descobrir encontros de mulheres para meditar, refletir sobre as medicinas da floresta e conversar. Nesses grupos de estudo, que logo aprendi a chamar de círculos, a sensação era de confiança e de intimidade até mesmo entre estranhas; e, em pouco tempo, eu descobriria que o que eu estava vivendo era o resgate de uma ancestralidade quase perdida.

Graças às guardiãs contemporâneas desses saberes, como terapeutas, curandeiras, artesãs e pesquisadoras, o Sagrado Feminino virou filosofia de vida e está cada vez mais popular, reforçando, inclusive, o que o feminismo tanto prega: a sororidade e a irmandade entre mulheres baseada na amorosidade por si e pela outra, mas com um viés ecológico e espiritual.

(Ilustração: autoria desconhecida)

Apesar da aura mística que o termo carrega, o significado remete a um conjunto de crenças não religiosas que coloca a mulher como sagrada, como um ser pleno e sagrado. Também não é oposto do masculino, pelo contrário: propõe um equilíbrio partindo do conceito de que cada indivíduo possui ambos. No lugar da competição, equilíbrio.

Enquanto filosofia, é uma jornada de reconhecimento. Não à toa, quando uma mulher é colocada frente aos saberes antigos femininos, é como se fosse uma volta para casa. E daí nos damos conta de que o caminho é bem mais simples do que pensamos e de que tudo o que precisamos está bem diante de nós, à nossa volta.

Apesar da aura mística que o termo carrega, o significado remete a um conjunto de crenças não religiosas que coloca a mulher como sagrada, como um ser pleno e sagrado.

Quem tem medo do feminino

Para entender o quanto a sacralidade feminina foi castrada pelo patriarcado, precisamos reconhecer que, de geração em geração, o formato social em que vivemos nos proporcionou múltiplas conquistas, da liberdade profissional à sexual. Mas, para isso, foi necessária uma certa dose de masculinização – não no sentido literal da palavra, mas em habilidades que não nos são naturais, como o excesso de racionalidade e a crença de que toda mulher sempre tem a outra como rival. Assim, nos afastamos da vocação para irmandade, da voz da intuição e da autonomia de sermos curandeiras de nós mesmas com as ferramentas da natureza. Com a tecnologia, a medicina e a indústria, vieram os anticoncepcionais cheios de hormônios, que, além da possível causa de problemas de saúde, nos impedem de acompanhar nosso ciclo e conectá-lo com as fases da lua; de reconhecer a essência feminina.

Quem nunca ouviu uma amiga praguejar que gostaria mesmo é de ter nascido homem para não menstruar?

Nosso sangue passou a ser visto como sujo; e a fase da TPM, como a vilã da rotina feminina. Mudanças físicas e emocionais naturais em cada fase ganharam interpretações negativas e pejorativas.

Ciclos que falam

Reconhecer  e ressignificar nossa natureza cíclica é o primeiro e, talvez, o mais importante, passaporte para uma nova relação com a própria essência. Temos quatro fases em nosso ciclo menstrual, que duram em média uma semana cada uma e seguem o mesmo movimento cíclico das fases da lua, do sol, das estações do ano. Vibrando na aceitação e nos abrindo para ouvir os sinais, deixamos de ser vítimas para nos aproveitarmos do que cada uma oferece.

“Na menstruação, por exemplo, vivenciamos um tempo de renascimento, de deixar para trás o que nos limita, silenciar (olhar para dentro) e projetar intenções para um novo ciclo. Do fim da menstruação até a ovulação, é um momento auspicioso para aprender coisas novas, por exemplo. Durante a ovulação, se expressar fica mais fácil, e a criatividade e a clareza mental são elevadas. Na TPM, é hora de concluir os projetos e observar quais as questões internas e externas que impedem o sucesso”, tudo isso ouvi em retiro com a visionária e terapeuta do Sagrado Feminino, Morena Cardoso, criadora do método Danza Medicina.

Conexão com as fases da lua: redescoberta (Colagem: Marcela Briotto com mandala Danza Medicina)

Conexão com as fases da lua: redescoberta (Colagem: Marcela Briotto com mandala Danza Medicina)

Desde então eu aprendi a me perguntar: “O que quero e devo levar ou não para o novo ciclo?”

Mas, em um contexto em que poucas cultivam tempo e silêncio, escutar e interpretar esses sinais de si pode não ser tão fácil. Na minha jornada, me deparei com uma ferramenta que fez as vezes de uma bússola pessoal: a mandala lunar, idealizada por Morena em parceria com a designer Bárbara Blauth (você pode fazer o download gratuito da mandala lunar em www.danzamedicina.net). Foi quando, pela primeira vez, consegui praticar o que me faltou ser ensinado logo após a minha menarca: contextualizar o ciclo pessoal com o ciclo lunar e identificar padrões físicos e emocionais que moldam atitudes mês a mês.

“Ao percebermos como funcionamos, deixamos de ser vítimas para nos apropriarmos dos sinais que o nosso corpo e intuição nos mandam. É ter autonomia sobre si mesma”, ouvi de Morena sobre o que virou meu diário de cabeceira desde então – já há três anos.

Resgate dos rituais Se enxergarmos nosso sangue puro como parte sagrada de nós, que sentido faria despejá-lo todo mês ralo abaixo? Isso, para mim, tornou-se impossível desde quando ouvi falar pela primeira vez do movimento Plante Sua Lua. Nenhum ritual foi tão transformador para mim quanto este, em que a mulher tira seu sangue do coletor e derrama em um jardim ou vaso de flor, tempero ou planta. No caso do absorvente de pano, é preciso deixar de molho na água e “plantar”, quando for possível, a água com o sangue dissolvido. Ao  ritualizarmos o momento da menstruação, fortalecemos nossa relação com o corpo, trabalhamos a aceitação e reverenciamos a terra. Até mesmo mulheres sem útero ou que não menstruam mais podem honrar-se da prática, uma vez que continuam com o útero etérico (em energia). Neste caso, a sabedoria popular indica fazer a cada lua nova com vinho tinto ou mesmo um suco de cor escura pelo valor simbólico. Plantar a lua nos dias de hoje vai muito além de regar as plantas com um poderoso adubo. É um manifesto por aceitação e orgulho de ser mulher.

Círculos: espaços de irmandade

Os círculos de mulheres têm sido formados por todos os cantos do país retomando as chamadas tendas vermelhas, quando, em tempos imemoriais, as mulheres movidas por união e fraternidade se reuniam para tecer, aconselhar e menstruar juntas. Nos centros urbanos ou perto da natureza, esses encontros têm ganhado projeção com jovens guardiãs dos saberes antigos. Na última década, Morena Cardoso peregrinou por lugares de poder e de culturas variadas ao redor do mundo e já reuniu em seus retiros centenas de mulheres desde que voltou ao Brasil, em 2016. Foi justamente em um desses encontros, com terapias de cura baseadas na dança, que desconstruí crenças (de raízes católicas) e paradigmas de quem, por quase 20 anos, não sabia sequer escutar os sinais dos próprios ciclos.

Mais recentemente, acompanhei um grupo de estudos em São Paulo guiado pela doula e percussionista Joana Netz.  Na roda de cada mês, havia mulheres independentes, jovens e maduras, algumas com sensação de vazio e outras simplesmente atraídas por novos saberes. Um círculo, nos dias de hoje, cumpre o papel de conector e de local sagrado de partilha e de autoconhecimento por meio de rituais e estudos históricos e mitológicos.

Neles, a reverência à Grande Mãe, cujo pilar principal é reconhecer a energia feminina como nutridora e fonte de benevolência, traz o viés da espiritualidade independente de crenças religiosas. Para muitas de nós, esses encontros são o primeiro contato com a manifestação e o arquétipo da energia feminina representada por deusas de diferentes tradições (xamânicas, celtas, indígenas, afro, budistas). Entre cantos, rezas, danças e conversas, nada é tão prazeroso quanto desfrutar da ocitocina, hormônio do amor liberado no parto e nos momentos em que mulheres passam muito tempo juntas.

“A espiritualidade feminina não é uma religião organizada, é um caminho isento de dogmas e proibições”, escreveu a pesquisadora Mirela Faur, romena naturalizada brasileira, no livro Círculos Sagrados para Mulheres Contemporâneas (ed. Pensamento).

Quem são as mulheres sábias do seu convívio?

(Ilustração: autoria desconhecida)

Quando a mulher volta a se conectar com sua essência, amplia a consciência do próprio valor, aprende a dar voz à intuição e passa a ter mais coragem de ser ela mesma. No best-seller Mulheres Que Correm com os Lobos (ed. Rocco), lido por diversas gerações há 25 anos, a psicanalista americana Clarissa Pinkola Estés faz uma analogia da mulher desperta a partir de contos e lendas:

“Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm características psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e têm grande preocupação com seus filhotes, seu parceiro de vida e sua matilha. Têm experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação.Têm uma determinação feroz e extrema coragem.” Alguém se identifica?

Hoje, o Sagrado Feminino ganhou tom de novidade, mas a figura sábia nunca se perdeu. Em muitas mulheres, a essência estava apenas adormecida, enquanto em outras sempre transbordou, mas não era notado e rotulado. Para  reconhecer uma mulher conectada com a própria essência, basta olhar para dentro do próprio convívio pessoal e identificar quem tem o perfil de agregadora, quem consegue liderar sem autoritarismo e quem, ao mesmo tempo, é acolhedora e intuitiva. Somos todas sagradas e, coletivamente, cada uma em seu tempo, estamos despertando.

*Reportagem assinada por Marcela Rodrigues  – aká, a Naturalíssima : ) – , originalmente publicada na Bons Fluidos de março/2018.

Seguimos juntas. Ahá!

2 Comentários
  • Debi Gomes

    Responder

    Eu to tão feliz que te descobri! <3

    • Marcela Rodrigues

      Que amor de comentário. Bem-vinda! Seguimos juntas. Beijos, mana! Marcela

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