Piracanga: minha primeira vez em uma ecovila

Marcela Rodrigues -
Foi pesquisando sobre ecovilas que cheguei a um post de uma marca de roupas – ironicamente, não muito consciente – sobre a história do dono da Pizza do Amor, que havia criado o negócio após voltar de um Retiro de Leitura de Aura. Era a primeira vez que ouvia falar sobre Piracanga. E sobre Leitura de Aura. Na primeira das dezenas de pesquisas virtuais que fiz naquele dia, me deparei com um vídeo no YouTube – eram alguns moradores da tribo cantando “Vai Florecer” em uma dança circular. Assisti dezenas de outros. Depois de muitas tentativas – fruto de quase uma auto-sabotagem-, pisei em Piracanga em fevereiro de 2016. Fui passar cinco dias e meio. Relato abaixo um pouco da minha experiência, o que é Piracanga e dicas para quem vai passar por lá. Atenção: se você está procurando um lugar hippie-chique e hypado para passar as férias e fazer turismo, nem precisa continuar.
(Foto: aNaturalíssima)

O Rio Piracanga (Fotos: aNaturalíssima)

Quando pisei no solo arenoso de Piracanga pela primeira vez, em fevereiro, eu já me sentia íntima de boa parte da paisagem que encontraria. Desde 2013, quando eu havia lido sobre a comunidade, assisti praticamente todos os vídeos disponíveis na internet, até então, sobre o local, suas curiosidades e histórias. Eu não tinha a menor dúvida de que precisava conhecer a ecovila. E sozinha.

Apesar de cada vez mais popular (no começo do ano a comunidade aparecera em uma reportagem no Globo Repórter sobre vida em comunidade), eu sabia que a rotina ali era roots e nada glamourosa. E era isso que eu procurava. Um contato genuíno com a natureza e longe da minha rotina, a possibilidade de observar de perto a convivência em comunidade e, mais intimamente, eu sabia que seria uma busca espiritual ainda que meu alvo lá fossem os retiros com este objetivo diretamente. E foi esse propósito que me levou até a Península de Maraú, pertinho de Itacaré, na Bahia.

Os quartos onde, normalmente, ficam hospedados os alunos dos cursos e retiros (Foto: a Naturalíssima)

Os quartos onde, normalmente, ficam hospedados os alunos dos cursos e retiros

Logo após a virada do ano, me dei conta de que o chamado ainda estava forte eu precisava atender. Com as férias previstas apenas para o segundo semestre e já comprometidas, corri contra o tempo, peguei as folgas que tinha e coloquei o propósito: farei o retiro/curso que tiver dentro da minha data disponível. Qualquer um. No site, comprei o curso de Alimentação Consciente, facilitado pela equipe da Cozinha Alquimia –   aqui neste post fiz um relato de como passar alguns dias na cozinha de uma comunidade teve papel de fortalecer a minha jornada espiritual e de auto-conhecimento.

Checando se a pizza “viva”, cuja massa estava “cozinhando” no sol, estava no ponto (Foto: a Naturalíssima)

Checando se a pizza “viva”, cuja massa estava “cozinhando” no sol, estava no ponto

Piracanga está pop, mas não VIP – ainda bem!

Pisar em Piracanga pede um respeito imenso com a natureza, com o modo de vida compartilhado e consigo mesmo enquanto parte do universo. Para quem vive nos grandes centros – nem era tanto meu caso, pois cresci no interior e já tinha intimidade com terra e plantas -, algumas coisas podem ser muita novidade.

Até por que nem todo mundo está acostumado a associar turismo à ausência de bebidas alcoólicas e conforto – como pasta de dente convencional, xampu com espuma, internet e banheiros convencionais. Mas a verdade é que Piracanga – recentemente promovida a “Inkiri Piracanga”-, costuma atrair pessoas que já levam um estilo de vida consciente e em sintonia com a Nova Era. Não consigo imaginar alguém chegando ali com frescuras ou a procura de um lugar hypado e só.

Eu, já acostumada a uma rotina natureba, cheguei com a meu nécessaire quase todo adaptado. O que faltava comprei  da Plante, marca artesanal de cuidados pessoais produzidos no laboratório local  – um mini paraíso para uma entusiasta dos cosméticos naturais, como eu.

Kit biodegradável de cuidados pessoais: xampú, creme dental e o protetor solar

Kit biodegradável de cuidados pessoais da Plante: xampú, creme dental e o protetor solar

A rotina

O sol nasce cedo. Nos dias que fiquei por lá, acordava Às 6h e às 6h15 seguia para a prática aberta de yoga. Quem é morador, normalmente, a essa hora, já atravessou o rio e foi à praia surfar.  Às 7h o café da manhã estava aberto – eu amava quando tinha bolo de chocolate, mingau e banana cozida! Às 7h30, na Vila das Rosas, meditação sonora. Como a vivência na Cozinha Alquimia começava às 9h, ainda dava tempo de tomar um banho no rio.

A alimentação, vegana (conto mais dela aqui) é simples, com poucas opções, mas muito saborosa e nutritiva. Cada pessoa se serve e, após comer, lava e seca os próprios pratos e talheres. Por causa do solo arenoso, evita-se pisar no restaurante de chinelos. Bem perto do restaurante ficam duas lojinhas que comercializam itens produzidos pela comunidade, como roupas e acessórios, entre outras coisinhas trazidas de viagens pelos moradores.

Entre o almoço e o jantar, é possível fazer pequenos lanches no Açaí do Mar, uma espécie de lanchonete vegana, com climinha tropical e jovial, cujo espaço também é usado para festas, apresentação de música e outros eventos de entretenimento. A coxinha de jaca  de lá é um hit.

 

Quarto coletivo dos hóspedes: mosqueteiras para proteger (Foto: aNaturalíssima)

Quarto coletivo dos hóspedes: mosqueteiros muito necessários (Foto: aNaturalíssima)

Ah, e os mosquitos. Há MUITOS mosquitos em Piracanga. Na verdade, há muitos animais e insetos e tudo. E isso tudo não incomoda, pois é honrado como parte da natureza e nada mais. Indo para a área de Permacultura e me deparei com uma aranha imensa – eu, que aqui na cidade morro de medo, lá apenas contemplei e segui meu caminho. Voltando aos mosquitos, eu não quis usar nenhum tipo de repelente – nem mesmo os naturais. Durante o dia, a saia longa protegia bem as pernas. Na aula de yoga, me desconcentrava. À noite, mosqueteiras protegem as camas dos quartos que costumam acomodar hóspedes dos cursos e permitem um sono tranquilo – uma colega de quarto, certa noite, esqueceu de fechar a proteção dela e acordou com o braço coberto de picadas. Quem tem alergia realmente não pode abrir mão do repelente.

Esta era a minha rotina de hóspede-relâmpago. A da maioria das pessoas, moradores, mesmo que por tempo limitado, é bem diferente e mais ativa.

O banheiro a seco

Construídos com base nas técnicas de permacultura, os banheiros secos são uma tecnologia ecológica que promovem a fertilidade do solo, evitam a contaminação e desperdício da água, ajudam no reflorestamento, elimina a produção de gás metano no lixo…entre outras dezenas de vantagens.

A maioria das casas de Piracanga já utilizam apenas banheiros secos   e os hóspedes também têm opções no centro da ecovila – um deles, o “banheiro seco mais lindo do mundo” é lindo mesmo. No quarto, porém, há opções de banheiros convencionais – que eu não usei, aliás, uma única vez.

Banheiro seco do centro da ecovila

Banheiro seco do centro da ecovila

A história

Piracanga fica num terreno que já abrigou uma fazenda de cocos.  Além da vila, na qual moram cerca de 200 pessoas, há pequenas pousadas com quartos coletivos que costumam abrigar quem chega para os cursos e retiros.  Há quase três anos a comunidade também recebe jovens para a Universidade Viva Inkiri, uma universidade livre de seis meses que inclui vivências e especialização em alguma área, e a Escola Inkiri, escolha dos filhos dos locais, no qual as crianças têm sua autonomia respeitada, tomam decisões e têm experiências de aprendizagem a partir de princípios espirituais. Há  um centro cultural, um laboratório, onde são feitos os produtos de higiene biodegradáveis, e uma escola de música.

A vila foi fundada pela portuguesa Angelina Ataíde. Ela comandava um centro holístico em Portugal, que  tinha a leitura de aura como arro-chefe, e teve um sonho: nadava em águas cristalinas de um rio com uma floresta de coqueiros em volta. À época, um xamã lhe disse que ela encontraria esse lugar. Quase 20 anos depois, em uma viagem para Itacaré, foi levada por um nativo para conhecer um terreno, segundo ele, considerado sagrado. Era o sonho de Angelina.

A história de Piracanga começava ali. Ela e o marido voltaram para Portugal, venderam o centro holístico e voltaram para começa a vida do zero na então fazenda de cocos. Isso já faz 13 anos.

Algo curioso é que, embora no coração da Bahia, ouvi o sotaque baiano raríssimas vezes. Argentinos, mexicanos, portugueses são os mais presentes por lá. Daqui do Brasil, paulistanos e e cariocas que largaram seus empregos exaustivos para viver a vida em comunidade.

Mais que o lugar, as pessoas que vivem lá inspiram amorosidade, coletividade, contentamento, transparência e respeito com todos os seres. É divertido, leve e puro conforto estar lá. Lá o tempo passa diferente. E pra mim, foi a sensação de visitar um velho lugar conhecido.

Os cursos e retiros

O curso de formação em Leitura de Aura, um dos mais longos, com duração de onze dias, é o carro-chefe. Mas também há formação para outras terapias, como a Terapia do Renascimento. Há também vivências meditativas, de alimentação e de permacultura. Quem pensa que fazer retiro em uma comunidade que preza uma vida simples espiritual é barato, se engana. Não vou citar os preço total que gastei – incluindo passagem para a Bahia em alta temporada, pacote hospedagem + curso e terapias feitas. Isso por que o preço, pelo que noto nas pessoas que comentam nas redes sociais de lá, assusta. Temos a cultura de achar que por que é simples, têm alguma questão espiritual é barato. Lá a comunidade vive de tudo o que flui dessa energia de troca (serviço x pagamento).

Estando lá, é possível comprar várias terapias e aulas durante a estadia. Tem aula de surf, seção de reike, rituais xamânicos, leitura de aura (com um leitor em treinamento ou mais experiente. O preço varia) e terapias aquáticas no rio.

O wi-fi custa R$ 5 ao dia. Comprei no último, já que a minha ideia era ficar bem desconectada. Resultado: não funcionou nem na recepção. E não fez a menor falta.

Vai florescer


 

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